Órgãos de Juiz de Fora discutem sobre a ampliação de iniciativas de atenção psicossocial na cidade
- 28 de jul. de 2021
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Por Ana Schuchter

Pandemia aumenta demanda por acolhimento em saúde mental na cidade e órgãos locais se mobilizam . Fonte: Pexels
Desde o início da pandemia de Covid-19 no Brasil, o Centro de Valorização à Vida (CVV) de Juiz de Fora registrou um aumento em até 30% na demanda por acolhimento em saúde mental. Fato é que as discussões sobre saúde mental que circulam no mundo digital também têm movimentado ações institucionais e mobilizações sociais na cidade.
Com relação ao atendimento e apoio emocional prestado pelo CVV, o impacto foi visível no crescimento no número de ligações recebidas. Com isso, a saída encontrada pela iniciativa foi aumentar o número de capacitações oferecidas para formar novos voluntários que passaram a atuar no acolhimento dos cidadãos.
Vale ressaltar que o número de suicídios consumados na cidade nos primeiros seis meses de 2012 chegou a 29, próximo ao total de casos registrados ao longo de todo ano de 2017. Neste mesmo período, o número de tentativas registradas é de 64, segundo levantamento realizado pelo jornalista Fernando Gonçalves, junto a órgãos de segurança, como Corpo de Bombeiros, Polícias Militar e Federal.
O cenário de adoecimento mental
O aumento da demanda por atendimento no CVV surge de um contexto potencializado pela crise sanitária e de saúde de Covid-19. Desempregos, dificuldades financeiras e de convivência familiar fazem parte das motivações pela busca por atendimento psicológico.
O presidente da Associação Psiquiátrica de Juiz de Fora, Bruno Cruz visualiza que:
“Os fatores sociais, econômicos e do ambiente, que geram maiores atritos e conflitos e acabam diminuindo os prazeres e as atividades do dia a dia predispõem a casos depressivos, porque são gatilhos. Precisamos trabalhar nessa ponta. Quando falamos de depressão e suicídio, estamos falando de tratamento de doenças mentais.”
A necessidade de fortalecimento da rede de atenção psicossocial na cidade
Recentemente, o Comitê de Cidadania também resolveu compor as discussões sobre a rede de atenção psicossocial a partir do lançamento de seu 43º boletim informativo sobre a Câmara Municipal.
O órgão de controle social recebeu o professor da Faculdade de Serviço Social da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), Marco José de Oliveira Duarte, para ministrar uma palestra sobre políticas públicas de saúde mental. Ulisses Lenz, presidente do Comitê de Cidadania, acredita que também seja responsabilidade do coletivo visibilizar e engajar os cidadãos sobre o tema:
O convite também aconteceu a partir do artigo “Sobre a política pública de saúde mental, álcool e outras drogas no Brasil e em Juiz de Fora” assinado por Marcos José como presidente do Conselho Municipal de Política Integradas sobre Drogas (COMPID).
Ele acredita que a importância de políticas públicas de saúde mental no cenário local está na vigência de ações previstas pela Constituição. Na prática, isso significa que grupos sociais e o poder público devem tanto promover essas iniciativas legais, quanto cobrar pelo seu desenvolvimento pleno.
O presidente do Compid aponta ainda que há um enfraquecimento do avanço instituído pela reforma psiquiátrica – Lei 10.216/2001 e com ele o retorno negativo da lógica de internação, de abstinência e de alguns atos de segregação moral de pessoas em adoecimento mental.
Para o professor, os reflexos dessa lei já são sentidos por Juiz de Fora: o protocolo indica que a cada 200 mil habitantes, uma cidade deve ter um Centro de Atenção Psicossocial Álcool e Drogas (CAPS).
Atualmente, são cerca de 600 mil habitantes e apenas um CAPS Álcool e Drogas. Além disso, a cada 70 mil habitantes, uma cidade deveria ter um CAPS Infanto-juvenil. Na realidade local, a cidade conta com apenas um.
Dessa forma, a análise do pesquisador da UFJF sobre o impacto da Emenda Constitucional 95/2016 no cenário local e no trabalho das CAPSs é de retrocesso:
Por isso, Marco José acredita e reivindica urgentemente a expansão de Centros de Atenção Psicossocial (CAPSs), por exemplo, para ampliação do acesso à saúde pública e mental. ‘’Fortalecer as iniciativas como usuários, a necessidade de pontos de atenção na zona Norte da Cidade, repensar a alocação de repasses, são todas ações possíveis… Principalmente ter um espaço entre o poder público e a população a curto-longo prazo para promover um plano de metas’’ são passos estratégicos e importantes, aponta ele.
Além disso, o professor também incentiva a realização de um diagnóstico situacional da cidade e a realização de ações da Câmara para pensar e construir uma frente parlamentar em defesa da saúde mental e da reforma psiquiátrica.


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