Quanto vale uma medalha?
- 11 de ago. de 2021
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Atualizado: 12 de ago. de 2021
Como o dinheiro se tornou o ponto central na vida dos atletas olímpicos do Brasil
Por Letícia Dias

O saldo de medalhas brasileiras nas Olimpíadas de Tóquio foi o maior na história da competição, com o país figurando em 12° lugar. Esse dado, entretanto, é devido primordialmente à garra dos atletas que vestem a camisa verde e amarela. Aqueles que não conseguiram chegar ao pódio, com razão, desabam ao falar sobre suas trajetórias no esporte.
Uma pesquisa feita pelo Globo Esporte traz dados impressionantes: o Brasil chegou a Tóquio com 309 atletas; destes, 42% não têm nenhum patrocínio ou permuta, 19% vivem com menos de dois mil reais de auxílio e 7% vivem com menos de mil reais de auxílio do Bolsa Atleta. Em pior cenário, ainda foi constatado que 13% fizeram vaquinha para ir aos jogos e 10% sequer vivem do esporte que praticam, pois precisam de outra profissão para garantir renda.
Uma das atletas que mais representam essa falta de investimento no esporte é a atacante da seleção feminina de futebol, Marta, que mesmo sendo eleita seis vezes a melhor jogadora do mundo, está sem patrocínio esportivo há três anos. Desde então, ela entra em campo com uma chuteira neutra, utilizando o símbolo do Go Equal, pela equidade do patrocínio ao futebol feminino.
Episódios de choro e protesto pelo investimento no esporte brasileiro foram recorrentes durante os Jogos. A velocista Vitória Rosa, eliminada da disputa dos 200m, desabafou em entrevista após o resultado e comoveu os torcedores brasileiros.
Outro caso de espanto é o de Thiago Braz, competidor recordista no salto com vara na Rio 2016. De lá para cá, Thiago enfrentou anos difíceis, com lesões, resultados ruins, troca de treinadores e perda de patrocínios. Demitido de seu clube em abril do ano passado e longe de ser favorito, o atleta ainda assim conseguiu alcançar o bronze em Tóquio.

Como história de esperança para o esporte no Brasil, pode-se citar o caso de Darlan Romani. As imagens do lançador de peso treinando em terreno baldio ganharam as redes como história de superação, mas na verdade apontavam para a direção oposta: Darlan contou que só utilizou aquele espaço durante o período de lockdown;
O atleta, na verdade, é beneficiário do Bolsa Atleta na categoria Pódio, a mais alta do incentivo, com valores que variam de cinco a 15 mil reais. Além disso, faz parte do programa Atletas de Alto Rendimento das Forças Armadas, na Força Aérea Brasileira, e recebe em torno de quatro mil reais. Ele também é treinado no Clube Pinheiros, maior clube poliesportivo da América Latina, e possui patrocinadores para as Olimpíadas de Tóquio. A história de Darlan, embora cheia de complicações, deve ser vista principalmente como um exemplo de até onde o investimento e incentivo ao esporte podem levar o país.
Dificuldade institucional
Sem reajuste há dez anos, o programa Bolsa Atleta já não cumpre seu devido papel. O valor de 370 reais concedido para as categorias base e estudantil, na época, pagavam ao menos uma cesta básica completa e o transporte necessário para os treinos; hoje, já não pagam nem a cesta básica.
Além da necessidade do ajuste, os atletas enfrentam outro problema recente, que é a extinção do Ministério do Esporte pelo presidente Jair Bolsonaro. Desde o fim da pasta, em 2019, a nova Secretaria Especial do Esporte já teve três titulares. O último deles foi exonerado após resistir à indicação de Marcelo Magalhães para o Escritório de Governança do Legado Olímpico, órgão que administra o Parque Olímpico da Barra. Após sua exoneração, Marcelo Magalhães, que é padrinho de casamento de Flávio Bolsonaro, tornou- se Secretário da pasta.
Enquanto aconteciam essas alterações seguidas, Bolsonaro vetou o Projeto de Lei 2824/2020, que ampliava o acesso do auxílio emergencial aos atletas que estavam em condições de necessidade. Sem auxílio, sem patrocínio e, muitas vezes, sem o Bolsa Atleta, os esportistas brasileiros que chegaram às Olimpíadas representam a garra e a força desse país, que mesmo em tanta escassez, conseguiu alcançar uma marca histórica no número de medalhas.


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