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Quanto vale uma medalha?

  • 11 de ago. de 2021
  • 3 min de leitura

Atualizado: 12 de ago. de 2021


Como o dinheiro se tornou o ponto central na vida dos atletas olímpicos do Brasil

Por Letícia Dias


Marta entra em campo com chuteira do símbolo Go Equal desde 2018 como forma de protesto ao pagamento oferecido às jogadoras do futebol feminino. Foto: Go Equal

O saldo de medalhas brasileiras nas Olimpíadas de Tóquio foi o maior na história da competição, com o país figurando em 12° lugar. Esse dado, entretanto, é devido primordialmente à garra dos atletas que vestem a camisa verde e amarela. Aqueles que não conseguiram chegar ao pódio, com razão, desabam ao falar sobre suas trajetórias no esporte.

Uma pesquisa feita pelo Globo Esporte traz dados impressionantes: o Brasil chegou a Tóquio com 309 atletas; destes, 42% não têm nenhum patrocínio ou permuta, 19% vivem com menos de dois mil reais de auxílio e 7% vivem com menos de mil reais de auxílio do Bolsa Atleta. Em pior cenário, ainda foi constatado que 13% fizeram vaquinha para ir aos jogos e 10% sequer vivem do esporte que praticam, pois precisam de outra profissão para garantir renda.




Uma das atletas que mais representam essa falta de investimento no esporte é a atacante da seleção feminina de futebol, Marta, que mesmo sendo eleita seis vezes a melhor jogadora do mundo, está sem patrocínio esportivo há três anos. Desde então, ela entra em campo com uma chuteira neutra, utilizando o símbolo do Go Equal, pela equidade do patrocínio ao futebol feminino.

Episódios de choro e protesto pelo investimento no esporte brasileiro foram recorrentes durante os Jogos. A velocista Vitória Rosa, eliminada da disputa dos 200m, desabafou em entrevista após o resultado e comoveu os torcedores brasileiros.



Outro caso de espanto é o de Thiago Braz, competidor recordista no salto com vara na Rio 2016. De lá para cá, Thiago enfrentou anos difíceis, com lesões, resultados ruins, troca de treinadores e perda de patrocínios. Demitido de seu clube em abril do ano passado e longe de ser favorito, o atleta ainda assim conseguiu alcançar o bronze em Tóquio.


O medalhista Thiago Braz é o único da delegação de atletismo sem clube. Foto: Li Ming/Xinhua

Como história de esperança para o esporte no Brasil, pode-se citar o caso de Darlan Romani. As imagens do lançador de peso treinando em terreno baldio ganharam as redes como história de superação, mas na verdade apontavam para a direção oposta: Darlan contou que só utilizou aquele espaço durante o período de lockdown;

O atleta, na verdade, é beneficiário do Bolsa Atleta na categoria Pódio, a mais alta do incentivo, com valores que variam de cinco a 15 mil reais. Além disso, faz parte do programa Atletas de Alto Rendimento das Forças Armadas, na Força Aérea Brasileira, e recebe em torno de quatro mil reais. Ele também é treinado no Clube Pinheiros, maior clube poliesportivo da América Latina, e possui patrocinadores para as Olimpíadas de Tóquio. A história de Darlan, embora cheia de complicações, deve ser vista principalmente como um exemplo de até onde o investimento e incentivo ao esporte podem levar o país.



Dificuldade institucional


Sem reajuste há dez anos, o programa Bolsa Atleta já não cumpre seu devido papel. O valor de 370 reais concedido para as categorias base e estudantil, na época, pagavam ao menos uma cesta básica completa e o transporte necessário para os treinos; hoje, já não pagam nem a cesta básica.

Além da necessidade do ajuste, os atletas enfrentam outro problema recente, que é a extinção do Ministério do Esporte pelo presidente Jair Bolsonaro. Desde o fim da pasta, em 2019, a nova Secretaria Especial do Esporte já teve três titulares. O último deles foi exonerado após resistir à indicação de Marcelo Magalhães para o Escritório de Governança do Legado Olímpico, órgão que administra o Parque Olímpico da Barra. Após sua exoneração, Marcelo Magalhães, que é padrinho de casamento de Flávio Bolsonaro, tornou- se Secretário da pasta.

Enquanto aconteciam essas alterações seguidas, Bolsonaro vetou o Projeto de Lei 2824/2020, que ampliava o acesso do auxílio emergencial aos atletas que estavam em condições de necessidade. Sem auxílio, sem patrocínio e, muitas vezes, sem o Bolsa Atleta, os esportistas brasileiros que chegaram às Olimpíadas representam a garra e a força desse país, que mesmo em tanta escassez, conseguiu alcançar uma marca histórica no número de medalhas.








 
 
 

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