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Política no esporte e a dificuldade de ser brasileiro

  • 5 de ago. de 2021
  • 5 min de leitura

Como torcer para atletas olímpicos se tornou uma questão na conjuntura atual do país


Jogador Wallace viu sua popularidade cair após fazer símbolo político em comemoração da vitória sobre o Egito, no Mundial de 2018. Foto: CBV

Com os Jogos Olímpicos, iniciou-se um debate inflamado nas redes sociais brasileiras: a política. Mesmo a maior e mais antiga disputa esportiva do mundo não é capaz de impedir provocações e ataques contra aqueles que estão no espectro oposto. Conforme o espírito olímpico vai aparecendo, a consciência política também dá as caras e guia o lado racional dos torcedores que outrora gritavam de emoção.

Os episódios iniciaram logo na primeira medalha da jovem skatista Rayssa Leal, que com apenas 13 anos foi cobrada de se posicionar politicamente.



Junto a esse primeiro debate, aconteceram os primeiros jogos da equipe masculina de vôlei de quadra, e as críticas se estenderam também aos atletas da Seleção. Se por um lado ela conta com Douglas Souza, jogador gay que se tornou um fenômeno e ganhou quase 3 milhões de seguidores desde o início da competição, há também Maurício Souza e Wallace, jogadores que em 2018 apoiaram publicamente o então candidato à Presidência, Jair Bolsonaro.

O caso dos jogadores do voleibol aumentou a temperatura da discussão, desde que o influencer Felipe Neto postou no Twitter uma foto com críticas aos jogadores e Maurício Souza rebateu em seu instagram. Maurício permanece demonstrando seu apoio político publicamente, mesmo durante os Jogos.


Foto: Instagram do jogador Maurício Souza

Outro competidor também atingido através do julgamento político foi Gabriel Medina, atleta do surf. Os internautas brincaram com o fato da derrota não ser tão dolorosa por conta de suas escolhas partidárias.



Foto: Twitter

Para o cientista político Paulo Figueira, esse é um processo inflado pelas condições recentes tanto de polarização política quanto de midiatização de nossas vidas através da internet. Segundo ele, isso sinaliza a centralidade que o ambiente midiático adquiriu em nossos dias, fazendo com que a compreensão de fenômenos de outros campos, como o esporte e a cultura, perpasse pela comunicação. “Num contexto assim, é consequência previsível que haja maior dificuldade de avaliarmos pessoas muito conhecidas em suas respectivas áreas de atuação sem levar em conta suas manifestações públicas sobre outros temas. Nossas simpatias e antipatias políticas, consequentemente, acabam por atravessar a avaliação que fazemos dos outros, inclusive em relação a estas pessoas com grande notoriedade em seus respectivos campos. Trata-se de mais uma evidência reveladora do processo de midiatização que caracteriza a contemporaneidade”.

Fato é que o espírito esportivo, por ora, não tem sido suficiente para alienar os cidadãos infelizes com o estado atual da política brasileira. Se engana, porém, quem acredita ser esse um estado atual e momentâneo de fissura. No documentário Pelé, lançado pela Netflix, o grande cantor e compositor Gilberto Gil, exilado durante a ditadura, fala sobre a Copa de 1970.


Era um momento em que o Brasil vivia o auge da ditadura, o auge da repressão, das investidas contra a liberdade de expressão, de mobilidades etc, e no meio daquilo tudo um oásis de beleza, de esperança, de emoção positiva, de emoção estimulante que foi a Copa de 70
Gilberto Gil, cantor e compositor

O documentário retrata, além da carreira esportiva do rei do futebol, o lado político de sua vida, que sempre foi alvo de ataques. Durante o período ditatorial, Pelé era uma vitrine de sucesso brasileira e se apoiava nessa fama para aproveitar as investidas do governo em sua publicidade, sem nunca ter tomado lado ou se oposto ao regime. Quando questionado se houve mudança depois do início da ditadura, Pelé respondeu: “Não, o futebol continuou igual. Para nós, não teve muita diferença. Pelo menos pra mim, não teve diferença nenhuma”.


É possível que muitos não consigam enxergar relação desse período distante com o esporte atual, mas um caso específico ocorrido na última semana demonstra o oposto. A atleta da seleção de Belarus, Krystsina Tsimanouskaya, foi retirada da vila olímpica e levada ao aeroporto à força por integrantes do comitê de seu país. O motivo seria um texto postado nas redes sociais em que Krystsina alegava não ter sido informada ou consultada sobre sua escalação para a prova de revezamento 4x400, além de uma denúncia feita no aplicativo Telegram, em que ela delatava ao Comitê Olímpico Internacional (COI) que outros atletas estavam sendo impedidos de ir à competição porque o país não estava disponibilizando testes antidoping. Segundo ela, seu treinador informou que havia sido orientado a encerrar sua participação nos Jogos por ordem superior.



Krystsina Tsimanouskaya pediu asilo político após episódio. Foto Reuters/Issei Kato

A atleta gravou um vídeo pedindo ajuda ao COI, em que alegava medo de ser sequestrada assim que deixasse o país. No aeroporto, a comissão técnica foi abordada por policiais e Krystsina conseguiu cancelar sua ida naquele vôo. O caso permanece sendo estudado pelo Comitê, e a atleta aguarda no Japão a resposta ao seu pedido de asilo. Através do Twitter, o Ministro das Relações Exteriores da Polônia, Marcin Przydacz, afirmou que o governo polonês ofereceu um visto humanitário à corredora e que ela pode se dedicar à carreira esportiva no país, se assim for sua vontade.



Emoções conflitantes


O cerne desse choque está dentro de cada torcedor que, em contato com o amor pelo esporte e o ânimo pela política, não consegue separar ou apagar uma dessas partes importantes de si. Esse é o caso de Samuel Vieira, apaixonado por esporte e, ao mesmo tempo, preocupado com a situação política. Para ele, é uma sensação conflitante acompanhar atletas e se deparar com o apoio de alguns deles a políticos que não os apoiam de volta em forma de investimento em infraestrutura durante todo o tempo de preparação para as competições.


Para Arthur Ribeiro, psicólogo e psicanalista, essa dualidade está intrínseca ao ser humano: “os conflitos e mistérios do inconsciente são pilares da existência humana. A psicanálise trabalha com a concepção de que precisamos, primeiro, aprendermos a ouvir a nós mesmos antes de nos propor a ouvir as outras pessoas. Esta compreensão de si, acaba por auxiliar no entendimento que temos também sobre as outras pessoas e suas trajetórias, modos de ser e de estar no mundo. Pode, por exemplo, ajudar a entendermos que está tudo bem torcermos por um esporte cujos jogadores, por algum motivo, nos cause estranheza”.

Para ele, é necessário compreender nossos afetos e entender a trajetória do outro sem precisar requisitar que ele tenha tudo em comum para que se deseje bem, nesse caso para que ofereça apoio e torcida. “Se os jogadores têm posicionamentos políticos percebidos por nós como “equivocados”, cabe também lembrar que, em quadra, a política pode ser outra: estão representando um país onde o esporte sempre se colocou com uma das possibilidades de reversão de quadros de extrema vulnerabilidade”, ressalta o psicanalista.


Podemos vibrar com os saques, com os pontos marcados um após o outro. Podemos também, em outros momentos, apontar que, fora das quadras, certos posicionamentos não nos representam
Arthur Ribeiro, psicanalista







 
 
 

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